
O que é mais poderoso: o jogo ou a sensação de fugir da realidade?
A adição de jogos, sejam digitais ou de sorte e azar, é um fenómeno crescente em Portugal, afetando diversas faixas etárias e contextos sociais. Embora o design envolvente dos jogos tenha um papel importante, é a sensação de fuga da realidade que frequentemente motiva as pessoas a se envolverem excessivamente. Mas o que é mais poderoso: o jogo em si ou a necessidade de fuga?
A Imersão nos Jogos Digitais
Os jogos modernos são projetados para oferecer experiências imersivas, utilizando gráficos avançados, narrativas envolventes e sistemas de recompensas constantes. Esta combinação pode capturar a atenção do jogador de forma profunda e duradoura. Em Portugal, a utilização de tecnologias digitais tem vindo a aumentar, refletindo-se no tempo dedicado a atividades como jogos online.
Jogos de Sorte ou Azar: Uma Realidade em Portugal
Em paralelo aos jogos digitais, os jogos de sorte ou azar também têm uma presença significativa em Portugal. De acordo com o V Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral, promovido pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), a prevalência de jogos de fortuna ou azar (jogos a dinheiro) em 2022 foi de 55,6% na população entre os 15 e os 74 anos, mais 7,6% face a 2017. A prevalência é mais elevada nos homens (62,7%) do que nas mulheres (49%).
A Fuga da Realidade: Um Mecanismo Psicológico
A fuga da realidade é um mecanismo de defesa psicológico que permite ao indivíduo afastar-se temporariamente de situações de stress ou ansiedade. Nos jogos, essa fuga manifesta-se na procura por alívio emocional e psicológico. Estudos indicam que o uso excessivo de jogos pode estar relacionado a dificuldades emocionais ou sociais, funcionando como uma válvula de escape para os jogadores.
O Impacto nos Jovens: Desafios e Oportunidades
Os jovens são particularmente vulneráveis ao apelo dos jogos digitais e de sorte/azar. A fase de desenvolvimento emocional e social torna-os mais suscetíveis ao desejo de escapar das dificuldades do dia a dia, como pressão académica, relacionamentos sociais complexos ou questões familiares. O uso excessivo de jogos pode, assim, funcionar como uma saída para um mundo digital que oferece um controlo que, muitas vezes, a realidade não proporciona.
Além disso, o acesso a dispositivos móveis e à internet tem se tornado cada vez mais acessível, o que facilita a imersão no universo dos jogos digitais. Muitos jovens encontram nas plataformas de jogos online uma forma de pertencer a comunidades virtuais, onde interagem com pares de diferentes partes do mundo, criando um senso de identidade e coesão social. Para alguns, os jogos tornam-se uma extensão da vida real, proporcionando uma forma de expressão e validação social.
Entretanto, quando o tempo dedicado aos jogos compromete outras áreas da vida, como estudos, trabalho ou relações interpessoais, podem surgir consequências negativas. A dependência de jogos entre jovens está muitas vezes ligada ao sentimento de solidão, baixa autoestima ou dificuldade em lidar com emoções difíceis. A perceção de que o mundo virtual oferece uma alternativa mais controlável e menos ameaçadora que a realidade pode tornar-se um risco para o seu bem-estar mental e emocional.
A Importância da Educação e Intervenção
É essencial que pais, educadores e responsáveis pela saúde mental estejam atentos aos sinais de uso excessivo e procurem estratégias para ajudar os jovens a equilibrar o uso dos jogos com outras atividades saudáveis. A educação digital, que envolve não só o ensino de como utilizar a tecnologia de maneira responsável, mas também o incentivo ao desenvolvimento de competências sociais e emocionais, é uma ferramenta fundamental nesse processo.
A intervenção escolar, por meio de programas de prevenção, é essencial para consciencializar os jovens sobre os riscos associados ao uso excessivo de jogos, oferecendo ferramentas que favoreçam escolhas mais conscientes e a promoção de um equilíbrio entre o mundo digital e as atividades do dia-a-dia.
Conclusão
A dependência de jogos, sejam digitais ou de sorte e azar, em Portugal resulta de uma interação complexa entre o design dos jogos e as necessidades emocionais e comportamentais dos indivíduos. Compreender essa dinâmica é essencial para desenvolver estratégias eficazes de intervenção e apoio psicológico, promovendo um equilíbrio saudável entre o mundo digital e a realidade.
• Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD). (2022). V Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral. Recuperado de https://sicad.pt/BK/Documents/2023/CICSNOVA_INPG_2023.pdf
• Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD). (2021). Enquadramento Epidemiológico. Recuperado de https://sicad.pt/BK/EstatisticaInvestigacao/Documents/2021/EnquadramentoEpidemiologicoPN2021.pdf

