O silencio que fala

"O Silêncio que Fala!”

Ser pai ou mãe é uma tarefa cheia de desafios. Uma pergunta frequente nas consultas é: “Será que estamos a fazer o certo? E a minha resposta é sempre a mesma: “Não há decisões certas ou erradas, há decisões que fazem sentido!”
Tentamos proteger os nossos filhos, dar-lhes o melhor que temos e, muitas vezes, achamos que, ao evitar certos assuntos ou não falar de certos sentimentos, estamos a protegê-los do sofrimento. Mas será que o silêncio realmente os protege? Ou, ao contrário, será que o silêncio os afasta, criando um vazio onde eles começam a preencher com incertezas, medos e inseguranças?
O que não dizemos pode, muitas vezes, ser mais impactante do que as palavras que escolhemos. Este artigo convida-te a refletir sobre o impacto do “não dito” e como ele pode moldar o crescimento emocional das crianças.

O Silêncio como Forma de Comunicação
O silêncio pode parecer inofensivo. Mas a verdade é que, em casa, ele não significa apenas “ausência de palavras”. As crianças são esponjas emocionais; captam cada mudança no ambiente, mesmo quando não há palavras envolvidas. Quando os pais evitam falar sobre algo importante ou se calam diante de uma situação emocionalmente intensa, o que estamos, na verdade, a comunicar é que o assunto é tabu, que os sentimentos devem ser escondidos ou que certas situações não podem ser partilhadas.
Como será que uma criança percebe o silêncio dos pais quando algo está a acontecer? Ela pode interpretar a ausência de explicações ou de conversas como uma forma de rejeição, ou sentir-se impotente por não conseguir entender o que se passa à sua volta. O silêncio pode criar um vazio no coração da criança — um vazio que é preenchido com dúvidas, inseguranças e medo.
Imagina que o teu filho está a atravessar um momento difícil — talvez uma mudança em casa, um conflito familiar ou até a perda de um ente querido. Se, em vez de falar sobre isso, escolhes evitar o tema e não esclareces as dúvidas que ele possa ter, o que estará a criança a pensar?
Será que ela sentirá que não pode confiar em ti? Será que se sentirá sozinha nas suas emoções, sem saber a quem recorrer para entender o que está a acontecer? O silêncio, muitas vezes, transmite uma mensagem mais forte do que qualquer palavra dura. Ele diz à criança que certos sentimentos são proibidos, que certos assuntos não devem ser falados.
Mas, ao não falar, estamos a deixá-los com uma carga emocional difícil de processar. Eles ficam sem saber como lidar com o que sentem. Ao contrário do que muitas vezes pensamos, o silêncio não ajuda, mas cria um vazio emocional que pode afetar a autoestima, a confiança e até as relações futuras.
Falar sobre sentimentos não é fácil. Muitas vezes, como pais, preferimos evitar o desconforto das conversas difíceis, na esperança de que o tempo cure tudo. Mas a verdade é que as crianças não se curam daquilo que não podem entender. Quando decidimos falar sobre o que está a acontecer — seja um momento de dor ou de incerteza — estamos a mostrar aos nossos filhos que podemos passar por isso juntos. E, mais importante, estamos a ensinar-lhes que está tudo bem sentir-se vulnerável, e frágil.
Falar não significa ter todas as respostas, mas sim estar presente para ouvir e para explicar de uma maneira acessível. E mais ainda: significa validar os sentimentos da criança. Quando falamos com ela de maneira sincera e aberta, estamos a criar um vínculo de confiança que vai além das palavras. Estamos a ensinar-lhe que as emoções podem ser compreendidas, partilhadas e, mais importante, tratadas com respeito.

A Força da Comunicação e o Impacto do Silêncio
O silêncio pode ser uma espada de dois gumes. Embora por vezes seja necessário para refletir, ele não pode ser o nosso único meio de comunicação. As crianças precisam de saber que podem contar connosco, que estamos aqui para as ajudar a entender e a lidar com os seus sentimentos.
A boa notícia é que, ao começarmos a falar, mesmo que de forma simples, estamos a dar aos nossos filhos a ferramenta mais poderosa de todas: a capacidade de compreender os seus sentimentos e os sentimentos dos outros. Estamos a ensinar-lhes que o amor, a confiança e a compreensão começam com a comunicação.
Então, da próxima vez que sentires o impulso de evitar uma conversa difícil ou de não dizer nada, pensa: “O que estará o meu filho a aprender com o meu silêncio? Estou a dar-lhe as ferramentas para crescer emocionalmente saudável?”
Não subestimes o poder das tuas palavras. E, mais importante, não subestimes o poder do teu silêncio. Ele pode ser uma ponte para a compreensão, ou uma barreira que afasta ainda mais a criança. O que escolheres, pode fazer toda a diferença na vida do teu filho.

– Thompson, R. A. (2019). The development of the person: Understanding the emotional self. Guilford Press.
– Morris, A. S., & Feldman, S. S. (2020). Parenting and children’s emotional development: Advancing theory and practice. Springer.
– Ginsburg, G. S., & Silverman, W. K. (2018). The role of parenting in the development of childhood anxiety. Clinical Child and Family Psychology Review, 21(1), 45-58. https://doi.org/10.1007/s10567-017-0242-0
– Collins, W. A., & Sroufe, L. A. (2020). The development of the person: The Minnesota study of risk and adaptation from birth to adulthood. Guilford Press.
– Zadeh, Z. Y., & Fivush, R. (2017). The development of emotional expression and emotion regulation. Developmental Psychology, 53(3), 501–515. https://doi.org/10.1037/dev0000347
– López, L., & Ríos, M. (2020). Emotional regulation and family dynamics: Influence on childhood development. Journal of Family Psychology, 34(5), 513–526. https://doi.org/10.1037/fam0000608
– Fivush, R., & Haden, C. A. (2017). Autobiographical memory and the development of the self. Psychological Science Agenda, 30(4), 12-17.

Horário de funcionamento

(mediante agendamento prévio)
Segunda-Feira
09:00 - 20:00
Terça-Feira
09:00 - 20:00
Quarta-Feira
09:00 - 20:00
Quinta-Feira
09:00 - 20:00
Sexta-Feira
09:00 - 20:00
Sábado
09:00 - 13:00
Domingo
Encerrado

Quero ser contactado!